Gabriel Hargreaves


Livrai-nos de todo mal, amém.
21 de setembro de 2011, 4:15
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Três horas da manhã.

Revirando a cama de olhos semiabertos, observando a brisa soprar a persiana em sua direção, estirava as pernas buscando campos ainda não ocupados pelo calor de seu corpo para que pudesse sentir com a ponta dos pés aqueles breves segundos de frio reservados pelo lençol.

O barulho vindo da rua numa segunda-feira pode ser ainda mais ensurdecedor que aquele dos finais de semana. Quando acostuma-se com o silêncio, o mais discreto sussurro é capaz de romper os tímpanos dos miseráveis que esperam deitados por um sinal de redenção.

Faz calor, ainda assim não consegue se desvencilhar de suas cobertas – era algo como que de sua proteção. Talvez porque o fizesse lembrar daquele beijo de mãe enquanto se preparava para dormir, talvez porque ainda tivesse a mania dos tempos de criança em esperar num fingir-de-adormecido um nó na ponta do lençol, deixado pelo pai ao chegar tarde do trabalho como prova de que lá estivera.

(…)

Distraía-se por qualquer estupidez. Geralmente sombras, embora não unicamente. Distraiu-se, por exemplo, com os contornos de um porta-retrato apoiado na estante frente a cama. Dada a falta de iluminação, não podia ver a imagem nitidamente, mas sabia que ali repousava em preto e branco um abraço de seus avós enquanto ainda jovens.

A felicidade emoldurada do casal de jovens no porta-retrato era algo que sempre havia lhe intrigado. Seria uma foto espontânea? Sincera? Ou seria somente um sorriso ordenado por um “sorriam” estridente de um fotografo qualquer? A verdade é que nada disso importa. As estórias retiradas das paredes sempre aparentam ser melhores que de fato foram.

(…)

O assovio do vento que passava pela fresta da janela poderia ser confundido com um afago por trás do pescoço. De olhos fechados, sentiu a nuca arrepiar-se de uma vez só.

O barulho arrastado da persiana que ainda gangorreava, confundiu-se com o de pés cansados que vinham em sua direção. Era como que se a qualquer momento fosse sentir um peso a mais na cama de alguém que acaba de se sentar, preparando-se para levar as mãos junto ao rosto num lamento de cansaço.

(…)

Esperou, esperou, e nada. Não havia nada naquele quarto fora os seus pertences. Nem ao menos uma alma sequer de um amor que havia resolvido cobrar à prazo os cacos de uma mente perturbada.

Naquele momento, entranhado nas cobertas da cama vazia, sentiu inveja daqueles que acreditam fervorosamente em um Criador…

Mais do que querer alguém que zele por seu corpo enquanto dorme, quer alguém que comungue de sua solidão.



Anotações de São Paulo.
19 de setembro de 2011, 3:11
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- 16:25, Rua Capote Valente 500.

 

O telefone toca,

A ansiedade bate,

O corpo desperta.

 

Ainda com a cara amassada e com o braço esquerdo por debaixo do travesseiro, estendeu a mão direita em direção ao telefone. Tentando disfarçar a voz de sono para que não percebessem que recém havia despertado, combinaram que em trinta minutos se encontrariam na esquina da Teodoro Sampaio.

Esfregou os olhos, escondeu-se por detrás dos óculos de grau, deu um gole do copo d’água que sempre deixa ao lado da cama antes de dormir, e alcançou a jaqueta que permanecia dobrada na cadeira.

Enquanto se vestia, observava a cidade pela janela do hotel. Milhares de carros e cabeças moviam-se desordenadamente de um canto ao outro, como se um ventríloquo assistisse a cena de um plano maior, tentando criar harmonia em meio de tantas buzinas.

Cada qual das pessoas que ali transitavam, imersas em passos e pensamentos, pareciam perdidas em suas frações de segundos, enquanto para o rapaz que as observava, um estranho no ninho, sentia que as horas em São Paulo eram uma questão de horas.  Um mundo voava, enquanto o dele permanecia acuado.

Milhares e milhares de pessoas, mas aquela com que há poucos dias havia esbarrado, fora a única capaz de fazê-lo perceber que os manequins que ali passavam tinham olhos, bocas, narizes e passos – principalmente passos, e que além disso tudo, eles também se esbarravam, como eles haviam se esbarrado, no entanto continuavam a passar – eles não.

Saiu do quarto em direção ao elevador. Esperou por alguns minutos antes que pudesse descer para o saguão do hotel – a tarde estava fria, ao menos fria para os seus parâmetros.

 

- 16:55, esquina da Capote Valente com a Teodoro Sampaio.

 

Encostado na placa que dividia as duas ruas, tentava compreender aquilo que se passava. Justificando-se por ainda não ter pensado no que faria, culpou seu signo solar pelos impulsos insolentes que sempre o guiaram para caminhos errados. Ele sabia que poderia cair de um precipício, ainda assim adiantava um passo.

Quase que pontualmente no horário combinado, sentiu um cutucão no ombro esquerdo. Virou-se e viu um sorriso, fazendo com que se esquecesse de todos os quilômetros que os separavam – literalmente.

Sentiu-se ridículo naquele momento, uma criança. Não sabia se estendia a mão para que as pudessem entrelaçar, não sabia se a abraçava. Na indecisão, optou por cruzar os braços na autojusticativa de que estava com ainda mais frio e começaram a caminhar em direção à feira da Benedito Calixto.

Caminhou e conversou como se a conhecesse há séculos, aos poucos viu aquela mesquinhez se subtrair. A companhia que compartilhavam estava escassa há tempos em sua vida, embora ainda tentasse racionalizar tudo aquilo estava acontecendo. Para o jovem de braços cruzados, a reciprocidade sempre fora alheia. Aquilo só poderia ser real em sua cabeça, ninguém pode gostar tanto da companhia de alguém com as tão poucas informações que tinham um sobre o outro. A única opção que lhe restava era continuar caminhando.

Ao chegarem à feira, foram logo de encontro ao tão esperado caldo de cana que ela tanto dizia gostar. Achou aquilo tudo um tanto engraçado, por mais clichê que possa parecer, sempre gostou dessas pequenas rotinas da vida como ir à feira do sábado para um caldo de cana, ou qualquer uma dessas manias que as pessoas costumam ter, como cheiro de livro antigo ou até mesmo o copo d’água ao lado da cama.

Enquanto terminava de lanchar, distraiu-se com uma copilação de poetas portugueses que estava à venda na banquinha ao lado, e então, sem nem ao menos perceber,  a enlaçou com o braço direito, sentindo-se perfeitamente natural, corriqueiro, como se aquele braço pertencesse ao corpo enlaçado a vida inteira – e assim permaneceram por um tempo.

A medida que as horas passavam, começou a sentir que seu mundo naquele momento também voava – as horas de São Paulo, antes uma questão de horas, transformaram-se numa questão de segundos. Percebeu que a partir daquele momento não queria mais voltar ao seu destino.

Ela falava de música e galerias de arte. Em contradição à velha máxima de que os opostos se atraem, ele também. Ela falava de moda, e de perspectivas de vida. Ele, leigo no assunto, tentava acompanhar atentamente o raciocínio da menina que tanto o havia impressionado. Compartilhou seu sonho de escritor, mas não que projetava relatar as horas passadas num próximo manuscrito, tinha medo de que ela o achasse fácil demais. Achou novamente um pouco de graça naquilo tudo, culpando mais uma vez seu signo solar – nunca soube ser discreto naquilo que sente.

Ao perceber pela escuridão do céu que o tempo dos dois já estava acabando, sentiu uma pequena onda de tristeza por saber que nada na vida pode permanecer intacto. Pouco tempo depois, decidiram rumar de volta ao ponto de encontro.

 

- Horário indefinido, esquina da Capote Valente com a Teodoro Sampaio.

 

Abraços de despedida sempre foram uma questão de timing. Ao chegarem ao lugar combinado, ninguém precisou dizer nada. Agarram-se um ao outro num grande suspiro, e assim permaneceram maldizendo os quilômetros das cidades que os separavam por um tempo – o beijo debaixo da placa que dividia as duas ruas fora mera consequência.

Dizem as más línguas que naquele momento São Paulo parou. Os 17 milhões de habitantes sucumbiram aos dois jovens, antes imperceptíveis naquela esquina. Alguns minutos se passaram e os jovens se olharam, como se quisessem ter na lembrança o rosto gravado um do outro – ninguém poderia prever quando se encontrariam novamente.

Foi então que com apenas um sorriso apagado estampado na cara, ela desapareceu na multidão que subia pela Sampaio, e ele pela Valente.



Tempo em Santo Agostinho.
30 de agosto de 2011, 0:01
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Achei válido compartilhar. Inspirado no problema do tempo em Santo Agostinho, concebido no meio da prova que fiz no sábado. 

Se estás presente porque lembro,

Se estás presente porque sinto,

Se estás presente porque espero,

O amor é tão linear em mim

Quanto o presente para o tempo.



Do ponto.
19 de agosto de 2011, 2:11
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A inquietude dos ponteiros anunciava a contagem regressiva de todos os anos pelos quais o parabenizavam naquela noite. Escondido por trás do enorme paletó de lã acinzentado, e observando por cima dos pequenos óculos redondos recaídos na ponta do nariz, cumprimentava os convidados aos cutucões de sua filha, que quando não o censurava fisicamente pela falta de cordialidade, o fazia pelo olhar.

Seis décadas cumpridas. Não somente cumpridas, mas compridas. A melancolia que antevia o prelúdio das Bachianas Brasileiras Nº4 de Villa Lobos, sua favorita desde os doze anos de idade, o acompanhava desde que descobriu aos treze que não se pode ser eterno.

Originalmente feita para o piano, embora orquestrada um ano após sua realização, sempre se lembraria da obra de Villa Lobos pelos tempos de universidade enquanto observava apático o lamento dos jovens vestidos de vermelho pelo exílio dos compatriotas, provavelmente perdidos em algum boteco uruguaio, ou de quando sua mãe o levava para que as Iyalorixás pudessem consultar aos búzios na esperança de se ocupar às terças-feiras – seja no destino ou nos braços da mãe ioruba Nanã. “Salubá!” – Ela diria. “Salubá”…

- Pai? – Disse segurando-o pela mão.

- Pare de divagar, pedi ao quarteto que tocasse Gardel em tua homenagem.

O quarteto ensaiava os primeiros acordes de “Por una Cabeza” à pedidos de Cicília, a filha mais velha.

Com os dedos leves levantou o braço direito do pai e enlaçou o esquerdo por trás de sua cintura. Com postura de segurança inclinou a cabeça para que  o pudesse encarar e com a perna esquerda, antes escondida pelo longo vestido vermelho, o conduziu para curtos pedaços do salão sem que ele fizesse muito esforço.

Por debaixo do bigode branco sabia que presenciaria pouco mais que dois invernos, embora rezasse todas as noites para que ao menos pudesse ver a quinta primavera de seus pequenos netos, ainda que no mês de julho.

Com os olhos atordoados pelos anos que o enlaçaram naquele tango, percebeu sua filha rosada, no entanto fria, guiar-lhe pela mão ao menos mais cinco passos pelo salão.

Se ao menos em Deus pudesse crer, o todo poderoso em cujas orações gastadas lhe arranhavam a garganta, talvez ao menos pudesse crer, que nas mãos frias que o guiavam, ainda o conduzia Cecília, e não as pálpebras que se cansavam.

Ao lembrar-se dos ponteiros, cujo atrevimento fez com que corressem à meia-noite, fechou as pálpebras gastas por um instante e à francesa retirou-se do recinto, alegando um compromisso inadiável com uma mulher que o esperava deitada na cama, recolhida.

Com um beijo despediu-se de Cicília, e com um sorriso despediu-se da outra, que de tantos cutucões dados a cada cortejo refutado, sentia em seus ombros enrugados uma leve anestesia.

Ao momento em que subia os degraus e afastava-se da festa, ouvia cada vez mais forte o prelúdio das Bachianas Brasileiras Nº4. A cada novo degrau que atingia, com mais força a melodia o tragava.

Assim sendo, à medida que chegou ao quarto, repousou os óculos sobre a escrivaninha e deitou-se, amassando o paletó e o que mais o envolvia, importando-se apenas em fechar os olhos para que pudesse se concentrar na orquestra que ainda regia.

Sentiu-se novamente um menino.



Dos Pontos.
17 de agosto de 2011, 15:08
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O asfalto estava molhado, fazendo com que as luzes da cidade borrassem o chão de vermelho, amarelo e azul – remetendo aos anúncios, faróis e mais anúncios, respectivamente. Às vezes tinha a impressão de que se pegasse um pincel e o mergulhasse nos charcos d’água, seria capaz de captar a essência de cada canto daquela cidade num quadro de Munch. Uma chuva grossa havia caído, a primeira em quatro meses.

Caminhava  alternando os passos de forma rigorosa – ora dois pela calçada, ora dois pela rua. Era como se estivesse no meio de um deserto, sentia-se no meio de uma ausência de tudo. No lugar das dunas constituídas de areia, arranha-céus rompiam pela paisagem de um extremo ao outro da cidade. No lugar das noites escuras, anúncios e postes desverginavam o céu que carecia de cuidado – não havia uma única estrela que pudesse ganhar a concorrência com os faróis que ali passavam.

Aquela era sua cidade, seu deserto particular. Antes fosse pela seca ou falta d’água habitual. A distância entre as almas que ali habitavam era ainda maior. Não é tampouco que os habitantes daquele pequeno cerrado não pudessem se alcançar, o diagnóstico era ainda pior: sempre que uma alma estendia a mão em busca de toque, a outra dissimulava a vontade num sorriso de canto. Não foi uma, nem duas, nem três vezes que um olhar atravessou o vazio, ou um beijo se dispersou na poeira vermelha daquele cerrado. Aquela era sua sina, e não havia nada de especial nisso.

Unicamente desértica. Não somente a rua e nem tão somente pelo horário. Uniforme, planejada. Talvez tão planejada quantos os passos alternados que dava. Talvez tão planejada quanto o mesmo futuro linear traçado pelos mesmos jovens de sempre. Uma cidade pequena que se dá ao luxo de reclamar das distâncias. Uma cidade que se dispersava na fumaça de mais um baseado queimado nos sonhos de Paris, Nova York ou Buenos Aires. O mesmo sonho de sempre, no mesmo lugar de sempre, pelas mesmas pessoas de sempre nos mesmos programas de sempre.

Escondido por trás do fone de ouvido que o separava dos demais, olhou para lua ao escutar uma canção de Nick Drake. Triste,  a canção. Mas não melancólica. Pink Moon não era somente a faixa que escutava, mas também um de seus álbuns preferidos. Talvez pela triste estória escondida por trás de From the Morning, cujo trecho “Now we rise, and we are everywhere” havia sido enviado por Nick em uma carta a sua namorada antes que cometesse suicídio.

Suicídio… Talvez planejado, como os arranha-céus daquela cidade. Talvez acidental, como o terceiro passo que havia dado na rua ao se distrair olhando para a lua. Mas isso já não importa, não agora. Não enquanto a voz e o violão ainda o estiverem guiando de volta para casa.

(…)

Cinco e quarenta da manhã, as luzes da cidade ainda estão acesas.

(…)

Existia um certo fetiche por bisbilhotar por detrás da persiana. As luzes borradas, espelhadas nas poças d’água formadas pelos fiascos de chuva ainda o lembravam de um quadro de Munch. Os poucos carros que transbordavam a gravura pareciam estrategicamente ambientados pelos poucos que não possuíam aquele luxo voyeur de observar o expressionismo daquela cidade emoldurado. Aquela era sua cidade, e por isso a amava.

Cinco e cinquenta e nove da manhã, as luzes da cidade se apagaram. O mundo renasceu, as almas saíram de onde estavam escondidas, e os borrões pintados no asfalto já haviam secado.

“Now we rise, and we are everywhere”



Feeling Good. Na voz de Nina Simone e tudo mais.
13 de julho de 2011, 1:30
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Acordei com certa urgência de você.

Não sei se pelo copo d’água vazio ao lado da cama, ou se pelo cheiro do jornal no qual tenho me ocupado na maior parte do tempo. Talvez pelas manias, as mesmas pelas quais te odiei. Ou até mesmo pela falta de um corpo transitando pelos poucos cômodos dessa casa.

Tentei buscar em mim mesmo um rosto para ambientar minha urgência. Qualquer linha, qualquer rastro, qualquer lembrança de tato que me fizesse reconhecer ao menos um cílio que seja nos dedos que escondiam, por trás da velha brincadeira de “faça um pedido”, nossos desejos mais ingênuos, insólitos e ocultos, que em nós guardamos por tanto tempo para jogá-los aos berros um ao outro sem cerimônia alguma.

Se ao menos pudesse lembrar o dedo que teu cílio escolheu, talvez achasse um conforto, mesmo que efêmero, ou talvez não um conforto, mas um ponto final, para os universos criados naquele dia.

Chamem-me de babaca. De imbecil, de ingênuo, de sonhador… Que se foda. A verdade é que mesmo tendo horas passadas desde a última vez que senti essa falta, ainda a sinto. Pulsante, gritante, latejante… Que se foda. Acordei com certa urgência de você, e foi assim que acordei.

Engraçado pensar em como o acaso está sempre a espreita, pronto para vitimar de um beco ou esquina, e ainda assim temos a escolha de ignorar ou seguir em frente. Nós seguimos. Nós quisemos. O sinal da esquina que cruzavas poderia estar fechado. Você poderia não ter se distraído com seus sapatos, impedindo o tropeço resultante do livro caído no chão, ao qual me fez reparar na tua existência. Ou talvez eu não estivesse no humor para ser cavalheiro e apanhá-lo, ou você para me agradecer. O fato é que assim nos conhecemos, ao acaso, aos milhares e milhares de universos impossíveis, tão impossíveis e coincidentes que faria até mesmo o mais cético dos céticos acreditar que talvez exista algo que não possamos controlar. Mas é claro que pensamos que podíamos.

É tão estranho pensar que antes disso tudo, tudo era tão diferente… Eu tinha urgências, é claro. Você também. Mas as necessidades vão se criando assim. Se não estivéssemos na condição de humanos, talvez a água não importasse. Muito menos o copo d’água vazio ao lado da cama. Mas somos, e eu me importei.

Acordei com certa urgência de você, mas no final das contas aqui estou eu. E tal como você veio, você se foi…



Montevidéu, New York e Paris.
6 de julho de 2011, 17:11
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Pouco me importará que me liguem às seis;

Pouco me importará que me deixem ao silêncio
Que não articulem o verbo
Que não abram a boca.

Pouco me importará
Que em matéria de gestar
Não há quem não o faça
Sem que ao menos o mais fino traço
Trace o selo que nela selará.

Pouco me importará que me liguem às quatro -
(Ou três horas antes)
E pouco me importa que me levem à tarde

Seja para passar,
Seja para tardar…

Pouco me importa o que é
Ou se a mim passará.

Porque agora é now,
Ahora,
Maintenant,
Já!

E não é preciso de know-how,
Savoir-faire,
Ou qualquer tipo de gosto
Senão aquele mais ridículo e estúpido de todos:

Pouco me importará.
Porque pouco,
Importa.



Das intermitências dos pontos.
3 de junho de 2011, 2:31
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As ameixas observavam através da janela e do outro lado da rua duas crianças balançarem, impulsionadas pelos pais, enquanto os risos voavam em sincronia com os longos fios loiros da menina de olhos negros que as observava, solitária, sentada num banquinho frente à família com os dedos das mãos cruzadas, transformando-as numa só.

A ideia de um pêndulo, como aqueles que cruzam de um lado para o outro era inevitável. A pequena observadora registrava  a cena como se ela mesma estivesse ansiosamente à espera de um pequeno pássaro prestes a sair de sua casinha, como aquele que reside dentro do relógio no alto da parede da casa de seus pais.

A garota que ali jazia pareceu sentir-se incomodada por um momento. Fitando de um lado para o outro como se buscasse a fonte de seu incômodo, percebeu as duas crianças balançarem numa espécie de dança simétrica – ora estavam em extremos opostos, ora encontravam-se no centro.

A cena talvez não fosse tão óbvia para quem a observasse, mas lúcida o suficiente para as ameixas, que mesmo distantes e principalmente escondidas por trás das janelas, entendiam naquela simetria pendular um medo de encontros e desencontros, do cálculo perfeito entre dois extremos, da junção degradante de lados opostos que permaneciam em perfeita linearidade por um feixe de segundo e então impulsionavam-se novamente aos extremos. “Me assombram as simetrias“ pensavam as ameixas, retomando as palavras de Rubem Alves.

Ao virar o rosto para trás, num gesto fino e cálido, os cabelos loiros da pequena solitária pendularam e ela então olhou na direção da janela cuja as ameixas observavam.

Aquela tênue linha de cumplicidade estabelecida remetia algo quase apagado que elas mesmas não podiam se lembrar. O medo, talvez. A observância, principalmente. Mas não eram os pequenos detalhes aparentes que ditavam aquele reconhecimento. As ameixas julgavam-se conhecedoras dos cabelos loiros que sentavam-se frente as crianças, e então longos cabelos loiros foram-lhes adquiridos. As ameixas julgavam-se conhecedoras do medo que observava as crianças, e então rugas foram-lhes adquiridas. As ameixas julgavam-se conhecedoras da solidão que cruzavam os dedos, e companhia foi-se feita.

Por trás da grande janela, jazia um casarão antigo pertencente ao século passado. As marcas rústicas enraizadas na madeira das paredes abrigavam um relógio do tipo cuckoo, suspenso em um pêndulo, em conjunto à uma velha lareira que repousava na sala de estar, que quando juntos ambientavam lembranças de um lugar que antes havia abrigado jantares e festas, vestidos de cetim, casacas de veludo, e principalmente a enorme janela direcionada a um pequeno pátio instalado ao lado oposto da rua, hoje em dia abandonado e deixado às ervas daninhas.

Repousando os braços em sua armação, as ameixas acomodaram o rosto frente à janela, aquela que jazia frente ao pátio, e reconheceram em meio a tanto musgo e ferrugem, um pequeno balanço que o tempo havia tomado,  instalado frente a um pequeno banquinho, que lutava para manter-se fixo em seus moldes…

As ameixas observavam através da janela e do outro lado da rua duas crianças balançarem, impulsionadas pelos pais, enquanto os risos voavam em sincronia com os longos fios loiros da menina de olhos negros que as observava, solitária, sentada num banquinho frente à família com os dedos das mãos cruzadas, transformando-as numa só.

O que antes fora base para longos cabelos loiros, agora abrigava duas ameixas negras, mofadas pelo tempo, e lembranças de quem antes observava de um banquinho frente a um balanço, agora enferrujado, tomado pelo musgo e ervas daninhas. Observava da grande janela a efemeridade da simetria pendular afastar-se cada vez mais em seus extremos, observava-se a si mesma à época em que as ampulhetas mal haviam sido giradas ao seu sentido oposto, compadecendo de sua inocência e afeições.

E então, não mais que de repente, as ameixas negras foram contraídas e murcharam, expelindo seu suco negro que pareciam manchar as maçãs pálidas do rosto devido à maquiagem que havia posto para enganar o tempo. Com um gesto fino e ríspido, enxugou o lado esquerdo com um breve ar de serenidade, deixando apenas o lado direito a debruçar-se em lágrimas.  “Me assombram as simetrias” pensou, lembrando-se mais uma vez de Rubem Alves.



“Listen…you know those days when you get the mean reds?”
19 de maio de 2011, 17:39
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- Canalha!

 Canalha. Não, não apenas canalha. Ca-na-lha, com sílabas separadas e ênfase tônica em cada fonema que saía daquela boca.

- É! Canalha! Mas não se preocupe – Disse-me com um ar despojado – É do bom tipo, sabe? Aquele jeitão meio que… Ah, sei lá. Uma onda meio que de Sinatra cafajeste!

 Uma onda meio que de Sinatra cafajeste… Aquela era Alejandra. Definitivamente Alejandra. Alejandra dos pés à cabeça, do começo ao fim da sentença. Explosiva, explicita, expressiva. O tipo de mulher que entra com um chute na porta, tira os sapatos e vai sentando no colo dos incomodados. Cigarro na mão direita, chope na esquerda, encontrava-se sempre naquele ambiente cheio de pessoas que juntas formavam uma espécie de coral regido por murmúrios e gargalhadas estridentes. Logo ao fundo do bar, um miúdo pianista de jazz fazia os dedos escorrerem pelas teclas formando as notas inicias de Waltz for Debby de Bill Evans. Definitivamente Alejandra.

 Alejandra era uma típica mulher argentina. Embora tenha nascido por lá, aprendeu o português como se quase sua língua nativa. O pai, diplomata, havia se mudado para o Brasil enquanto ainda muito pequena. Herdeira de uma família aristocrata, sempre teve gosto refinado pelas belas artes, vinhos, whisky e é claro, dona genética dum belo nariz empinado. Estava sempre muito bem vestida, mas não fazia muito o jeito de mesquinha. Adorava um bom boteco, desses que se arma uma roda de samba com o pandeiro do menino do caixa e com o cavaquinho do dono.

 Por mais que tenha se tornado costume passar as quintas-feiras naquele pequeno bar, nenhuma quinta-feira poderia se passar por comum. Não com aquela argentina invocada opinando e sentindo urgência de se expressar. Sempre tinha uma opinião divergente, plano quase concretizado e um sorriso cínico armado, geralmente usado antes de um “Alors” em francês e o resto da frase em inglês. 

 Dado um momento daquela noite de quinta, algo como três ou quatro da madrugada, os casais que conosco estavam na mesa haviam se levantado para dançar ao som do quarteto que tocava, aquele comandado pelo miúdo pianista. Restamos os dois, Alejandra e eu. Eu, como de praxe, encolhido na minha cadeira com o braço direito apoiado no esquerdo, segurava um cigarro já quase pela metade enquanto observava aquela fumaça sair lentamente de minha boca. Encarei Alejandra por alguns segundos, tempo o suficiente para reconhecer os resquícios do que logo se tornaria num sorriso cínico:

- Alors, you know those days when you get the mean reds?

 Mean reds… Eu definitivamente já havia escutado aquela expressão em algum lugar. Num filme, ou talvez num livro. Eu realmente não lembrava.

- Mean reds?

- Sim, querido. The mean reds! Breakfast at Tiffany’s, nunca assistiu? Ou pelo menos ler você deve ter lido. Escrito pelo Capote. “You know those days when you get the mean reds?” – Disse-me imitando a personagem de Audrey Hepburn no filme.

 O quarteto esboçou o que seria uma versão de “Fly me to the Moon” com uma linda voz feminina que me lembrava a de Julie London no centro do palco.

- Ah, sim. Claro!

- Pois bem, você não vai me perguntar “if I mean like the blues?”

 E então, com o corpo junto ao meu, ela se inclinou em direção aos meus ouvidos e eu poderia jurar que a tinha escutado acompanhar a canção naquela doce voz aristocrata: “In other words, darling kiss me…”

 Alejandra. Definitivamente Alejandra.  



Já dizia a velha canção,
17 de maio de 2011, 16:21
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As flores de plástico não morrem.


As manhãs já não cheiravam mais aos grãos moídos de café, tampouco o fim de tarde às pétalas derrubadas de jasmim. As panelas permaneciam como foram deixadas, as plantas careciam de cuidado. Toda aquela mistura de aromas e texturas cultivadas havia desvanecido à medida que tentava cultivar teu cheiro naquele pequeno grupo de orquídeas. Minha obsessão era inevitável. Aquele era o teu cheiro.

 Eu sabia que deveria ser discreto em relação às vestes. Sei que as orquídeas sempre foram suas preferidas, embora me tenham aconselhado crisântemos, flores vermelhas e até mesmo coroas… Continuei-as cultivando, as orquídeas. Tinha esperança que aquele breve cheiro suave pudesse algum dia encorpar e perfumar os cômodos de você… Eu não sei, esta era a minha primeira vez também… Dos dois lados da moeda, atrevo-me a dizer.

 No final das contas, talvez não fosse eu que estivesse cuidando de suas flores, mas elas cultivando-se de mim. Ouvi dizer que seus nutrientes são obtidos de material em decomposição e que se apóiam nas árvores por um feixe de luz. Talvez seja isso. Ou talvez não. Talvez elas tenham ficado para cuidar de mim, como se fosse uma simbiose. Eu dou a elas o que elas precisam, e elas me trazem de volta um pouco de você.

 Ao contrário do que estaria previsto em roteiro para o evento e também para o meu humor, aquela manhã amanheceu serena. O céu estava límpido, o café, mesmo sem açúcar, estava doce e os cômodos estavam mais perfumados que a estatura daquele pequeno grupo de flores permitiria. Talvez tenha sido conforme você havia planejado…

 Abotoei o último botão da camisa e dei um nó Windsor em minha gravata. Abotoei o primeiro botão de meu paletó e calcei meus sapatos recém engraxados. Apanhei o pequeno grupo de orquídeas separado pra você, e caminhei em direção ao carro.

 Lá chegando, ao lugar dos destinos não-destinados, caminhei em direção ao seu novo cômodo. Um pouco apertado, talvez. Mas feito à medida. Estava tudo pronto. Seria esse o momento do adeus. Ali estava você. De pele branca, jovial, maçãs rosadas e cabelos negros… Eu poderia jurar que você estava dormindo. Tanto se passava em mim naquele momento, tantas coisas a dizer… Mas acredito que você sabe. Posso garantir pelos lábios imóveis, mas emoldurados em teu sorriso…

 Aproximei-me com o rosto, e uma lágrima escorregou-se para o teu. Depositei as flores em teu colo e juntei suas mãos para que as segurasse, agora eternamente. E então com um beijo na testa me despedi. E pela última vez senti aquele cheiro. Aquele que jazia deitado, e aquele que perfumara toda casa hoje de manhã. Aquele cheiro que descansava agora em suas mãos. O quase imperceptível cheiro das orquídeas.




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